Alvo recente do futebol brasileiro, sendo, inclusive, colocado na mira do Flamengo, Rui Vitória enxerga “cada vez mais o Brasil como uma possibilidade permanente”, principalmente depois de ter sentido o calor da torcida rubro-negra, que, em janeiro, ficou eufórica ao vê-lo seguir o perfil oficial do clube nas redes sociais. Vitória, de 50 anos, aproveitou o longo bate-papo sobre o mercado da bola para destacar o sucesso de Abel Ferreira no Palmeiras, analisar o momento conturbado de Jorge Jesus e também recordar a passagem frustrada de Gabigol por Portugal.

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Quando o torcedor, principalmente o português, escuta o seu nome, qual é a imagem que aparece? Qual é a visão simplista que ele tem de você?
De alguém que ganhou respeito no futebol. As pessoas me consideram uma pessoa que gera respeito, o que é muito gratificante. Olham para um bom trabalho que foi feito no Benfica, para o fato de ter saído do Benfica de forma injusta, mas, no geral, todos têm um respeito muito grande, e isso é transversal a todos os clubes. Gosto de ouvir isso, porque as pessoas se identificam com os meus valores, com aquilo que representei enquanto estive trabalhando em Portugal.

O profissional português tem um poder de adaptação muito alto, há diversos treinadores nos mais variados países. Acha, no entanto, que a facilidade para se adaptar longe de casa pode vez ou outra jogar contra? Pode, talvez, causar um certo comodismo e, consequentemente, um distanciamento dos holofotes?
É uma boa pergunta, porque às vezes pode acontecer isso. Eventualmente, podemos ser vítimas desses bons resultados no estrangeiro. O treinador português é a prova que nós podemos estar em todos os tipos de mercado. Depois disso, criamos carreiras, há desejo de continuidade, somos bem recebidos e, às vezes, pensamos o seguinte: “Estamos bem aqui, então vamos trocar por algo incerto? Por quê?”. Pode haver essa sensação de que podemos estar afastados dos centros de decisão. Sim, acontece. Temos aqui tudo, temos sucesso, já nos adaptamos ao trabalho, nos dão aquilo que queremos e agora vamos dizer que queremos ir embora? Então pode haver uma tendência de continuidade.

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Depois de cerca de dois anos na Arábia Saudita, neste momento “não se permite” não trabalhar em um grande centro? Até pela questão dos holofotes…
Acima de tudo, quero ter um contexto competitivo e voltar a treinar. Seja pelos estádios cheios, seja pela competitividade do campeonato, seja pelo envolvimento criado no país. É preciso haver algo que me agrade, então está mais relacionado a um projeto competitivo agradável. Quando aceitei trabalhar no Al Nassr, olhei desta forma: gostei do projeto e do contrato. Agora, se houver condições de fazer o mesmo na Europa, melhor. Se não houver, há países e clubes com contextos muito agradáveis. A minha pausa neste momento foi para ganhar apetite, para ganhar vontade treinar. Estou aberto a várias possibilidades. Confesso que na Arábia Saudita havia uma boa competição, mas o envolvimento não era tão forte para nós que gostamos dessa parte mais competitiva.

Hoje está parado por opção ou por falta de projetos aliciantes?
Já recebi variadíssimas propostas nos últimos meses, propostas financeiras muito tentadoras, mas resolvi que a minha ideia era ficar parado até ao final da temporada (na Europa) pelo menos. Sinceramente, não aceitei ofertas porque não quis, se quisesse estaria muito bem, mas não é esse o meu objetivo agora. Vejo que essa pausa está me fazendo muito bem.

Trabalhar no Brasil é uma opção? Tem essa ambição? Sei que gosta da ideia…
Cada vez mais enxergo o Brasil como uma possibilidade muito permanente, porque vivemos mais e mais o futebol brasileiro. Temos nossos treinadores portugueses lá, com conhecimento cada vez mais aprofundado de jogadores e de equipes. Sinto isso como algo muito desafiante, porque essa é uma virtude dos portugueses: gostamos desses desafios. O Brasil é o país do futebol, em que as pessoas vivem para o futebol de forma apaixonadíssima. Na minha convicção, é um pais difícil para ser treinador, por tudo aquilo que sabemos do passado recente, mas ao mesmo tempo é uma ideia muito aliciante. Perdão a redundância: seria um desafio muito desafiante.

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